Somente um processo de produção que organize a participação criadora dos atores em todas as etapas e níveis do discurso do espetáculo pode ser o genotexto de textos que não sejam meras imitações ou adaptações da tradição ou da vanguarda do teatro ocidental, de textos que elaborem sua linguagem e suas personagens a partir das realidades que vivemos aqui e agora, mediante essa assimilação de todas as influências que somente a maturidade de uma expressão artística nos dá.
Para isso, é necessário passar da condição de “histrião” à condição de ator, da condição de intérprete à de criador que tem o direito e o dever de intervir (metodologicamente) em todos os níveis e aspectos do processo de produção do discurso do espetáculo e nas relações deste com o público.
O novo paradigma estético tem implicações ético-políticas porque quem fala em criação, fala em responsabilidade da instância criadora em relação à coisa criada [...]. Mas essa escolha ética não mais emana de uma enunciação transcendente, de um código de lei ou de um deus único e todo-poderoso. A própria gênese da enunciação encontra-se tomada pelo movimento de criação processual.
Na busca de uma nova relação com a platéia [...] procurou-se subverter a experiência de passividade por parte dos espectadores, de forma a que não se acomodassem enquanto convidados distantes da cena, mas que assumissem um papel mais ativo, crítico e integrado. No limite, almejou-se que o projeto artístico viesse a se configurar como uma criação de todos, rompendo-se a barreira entre artistas e público. Tal objetivo fez com que vários grupos deixassem os palcos italianos e criassem espetáculos e intervenções em ruas e praças, na busca de um contato direto com os transeuntes-espectadores. Procurava-se com isso, também, atingir e conscientizar criticamente um público que jamais iria ao teatro. Neste desejo de “participação” encontrava-se embutido um projeto utópico de transformação da realidade (ARAÚJO, 2008: 29).
A noção de criação cênico-dramatúrgica conjugada se refere ao campo do teatro contemporâneo em que a dramaturgia é construída como script (ou roteiro); muitas vezes como teatralização de textos de outros gêneros literários e discursivos (narrativas de ficção, cartas, diários, relatos de viagem etc.) e se produz em conexão direta com as necessidades, demandas e características específicas de projetos cênicos particulares.
Aparentemente situar o fenômeno teatral na relação efêmera do espetáculo com o público é uma obviedade. No entanto, essa obviedade produz profundas mudanças. De um lado recoloca o público como elemento importante a ser levado em conta no processo de criação. De outro, afasta a ilusão narcisista de que toda complexidade do fenômeno teatral possa ser reduzida a um único artista [...].
É a partir das críticas feitas às práticas anteriores – tanto à criação coletiva, no sentido de sua (in)eficácia estética, quanto à encenação autoral, no sentido de um domínio absoluto dos encenadores sobre a cena – que, em meados dos anos 90, foram retomadas, no Brasil, as práticas compartilhadas de criação. Retomada que foi caracterizada, no entanto, pela necessidade não só de autonomia, mas, principalmente, da garantia de um espaço de proposição relacionado à especificidade de cada função artística ligada à cena, inclusive da dramaturgia. Começava a se aprofundar a pesquisa em torno da criação de uma obra teatral por meio do processo colaborativo. Parecia haver o desejo, em contraposição a um grande desenvolvimento, a partir dos anos 80, do papel do encenador, de uma autonomia – e de uma autoria – criativa por parte das outras funções vinculadas à cena. Porque se a noção de uma criação compartilhada implica em uma desierarquização entre as funções artísticas, isso significa dizer que também os espaços de proposição e decisão são horizontalizados, fazendo com que a autoria da obra resultante seja, em decorrência disso, compartilhada.
No que tange às críticas feitas em relação à criação coletiva, pode-se dizer que uma boa parte dos estudos atuais centrados sobre o processo colaborativo – ao propor um modelo geral para a criação coletiva dos anos 60 e 70, a fim de distingui-la da prática hodierna – parece deixar de considerar que, em muitos grupos e países, principalmente na América Latina, ela não foi abandonada como prática produtiva e que seu exercício constante parece ter levado a uma superação de suas próprias deficiências.
Ao se considerar o material teórico produzido por esses coletivos teatrais, é possível perceber que a descrição da criação coletiva, pensada como método, não se difere, de maneira substancial, do chamado processo colaborativo, pois, inúmeras vezes, no processo de criação coletiva, havia a necessidade de que pessoas se ocupassem de tarefas específicas relacionadas à criação do espetáculo, tais como organização de ensaios, improvisos e definições relativas à própria cena (função que muitos grupos denominaram como “animador” e não “diretor”, por questões ideológicas); ou da costura cênica, dando coerência ao material coletado por todos (chamado “dramaturgista” ou “conselheiro literário”, pelas mesmas razões). É perceptível que, muitos dos indivíduos que se uniam em grupos com a proposta de desenvolverem uma criação coletiva, chegaram, com o passar dos anos, perto do que, atualmente, é definida como prática colaborativa, ao caminhar em direção a uma auto-organização, mesmo que fosse sem uma sistematização de seus processos de trabalho. Santiago García, diretor do La Candelaria, é um deles, começando até mesmo a esboçar, a partir da elaboração de uma metodologia, uma definição de funções artísticas específicas no interior da prática criativa.
Segundo García, ao começar um processo de criação coletiva, é necessário ter motivação e essa não tem que vir necessariamente do diretor. Espera-se que a proposta venha da “realidade circundante”, daí a importância de se ter conhecimento acerca dos acontecimentos sócio-políticos de seu país. A etapa seguinte é a pesquisa. Dividido em equipes, o grupo recolhe todo material encontrado relacionado ao tema: reportagens, fotos, filmes, músicas, poesia, livros. Posteriormente, se passa às improvisações, visto estar o grupo cheio de informações. Ainda segundo ele, não há uma forma ou método a ser seguido rigidamente, pois cada “obra exige uma técnica, ou uma forma diferente de fazer as improvisações”. Numa quarta etapa, busca-se a definição de um argumento – que virá a ser uma primeira hipótese de estrutura – e os detalhes do tema escolhido vão definindo suas linhas gerais.
Evidentemente, esses passos variam de um trabalho para outro, ou seja, a ordem não é necessariamente essa. Segundo García, aqui já se trata das linhas gerais, ou melhor, argumentais. Essas linhas argumentais começam a ser definidas através de uma série de improvisações, depois de conhecidas as linhas temáticas e expressas numa primeira proposta estrutural. Depois vêm a montagem e o texto. Quanto à montagem, os elementos necessários vão sendo elaborados, paralelamente, ao longo do trabalho. Esses elementos podem ser músicas, canções e corais, vestuário, cenografia etc. Quanto ao texto, este é escrito pela equipe encarregada da dramaturgia (que pode contar com a colaboração de poetas ou escritores). Ainda segundo ele, essa equipe vai recolhendo os diálogos que aparecem nos ensaios e improvisações e, quando escritos, os apresenta ao grupo para serem discutidos e ensaiados.
Todos os aspectos levantados por García evidenciam que a divisão de funções – considerada uma das maiores diferenças entre os dois processos – resulta, na criação coletiva, de uma constante prática e reflexão no interior dos próprios coletivos teatrais que a praticam. E mesmo em um comentário crítico de Antônio Araújo sobre a prática exercida pelos grupos brasileiros nos anos 60 e 70, é possível perceber que o caminho em direção a uma organização funcional é inerente aos processos coletivos; pois, neles, “determinados indivíduos assumiam, veladamente ou com pouca consciência do fato, as áreas de criação que se sentiam mais a vontade, fosse por algum talento ou facilidade específica, fosse pelo prazer advindo daí”.
Para Sílvia Fernandes, no entanto, embora Santiago García designe como criação coletiva o modo de produção teatral do La Candelaria, este seria, de seu ponto de vista, um modo de criação estritamente colaborativo, justamente em função da presença marcante do encenador e do exercício da dramaturgia por uma equipe especializada. Nesse sentido, ela afirma que o processo colaborativo “tem semelhanças com a criação coletiva, mas não se confunde com ela”. Segundo a pesquisadora, mesmo que o processo colaborativo, como conceito, se filie a essa forma de criação cênica, ele guarda, em relação a ela, algumas diferenças fundamentais como, por exemplo, a garantia e especificidade de cada função artística. Para Sílvia Fernandes, as distinções entre os dois processos são evidenciadas, sobretudo, pelas experiências brasileiras de criação coletiva – mais do que pelas experiências colombianas, nas quais ambos os modos de criação se confundem – como é o caso daquelas realizadas pelos grupos teatrais nos anos 70, mas, também, das experiências contemporâneas, como as vivenciadas pela Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, de Porto Alegre e pela Luna Lunera, companhia de teatro de Belo Horizonte.
A Luna Lunera, por exemplo, embora já tenha realizado montagens a partir tanto de textos pré-concebidos e de uma concepção de encenação prévia – como em seu primeiro espetáculo, Perdoa-me por me traíres, com direção de Kalluh Araújo – como também a partir de práticas colaborativas – caso de Nessa data querida, montagem resultante de sua participação no projeto Cena 3x4 – evidencia a opção por um sistema de criação coletiva na construção da maioria de seus trabalhos, posteriores à experiência no projeto Cena 3x4. É exemplar dessa opção, o espetáculo Aqueles Dois, cujo tecido dramatúrgico é marcado, fortemente, por traços oriundos do processo de criação, principalmente por aqueles concernentes a um trabalho especificamente atoral, tais como a opção de se iniciar o espetáculo com uma prática de contato improvisação que, aos poucos, se transforma em cena ou as quebras da linha ficcional por meio da introdução do pensamento do ator, confidências e relações que ele guarda com a personagem ou com o conto de origem e seu autor: Aqueles Dois, de Caio Fernando Abreu.
Em Aqueles Dois, da Luna Lunera, os atores assinam tanto a dramaturgia quanto a encenação, sendo responsáveis por todas as decisões estéticas, sejam elas de ordem textual ou cênica. Tal fato é evidenciado pela ficha técnica do espetáculo, na qual constam, como diretores-criadores, os quatro atores que estão em cena – Marcelo Souza e Silva, Cláudio Dias, Odilon Esteves e Rômulo Braga – e ainda o relator do processo e provocador externo à cena, José Walter Albinati. O núcleo de cinco criadores é responsável, ainda, pela criação do cenário e do figurino, pelo treinamento corporal e vocal e pela produção do espetáculo. São eles que relatam o processo:
Em maio de 2007, numa iniciativa informal, sem recursos, a Cia. propôs-se estabelecer internamente um grupo de estudos sobre Contato Improvisação e o Método das Ações Físicas e Verbais, tendo respectivamente Cláudio Dias e Odilon Esteves como mediadores. [...] Na prática, acabou-se por deslocar o mote inicial de estudos para um outro propósito latente: investir num exercício coletivo de direção e dramaturgia a ser desenvolvido pelos atores do grupo. Ainda nesta fase, decidiu-se aplicar as primeiras vivências da pesquisa tendo por base alguns textos aleatórios. Focou-se posteriormente na exploração do conto AQUELES DOIS, de Caio Fernando Abreu, descobrindo nele suas instigantes qualidades épico-dramáticas e uma inspiração para potencial montagem.
Organizou-se um cronograma de direção conduzida a cada semana por um dos quatro atores envolvidos no processo nesta fase, a saber: Marcelo Souza e Silva, Cláudio Dias, Odilon Esteves e José Walter Albinati, tendo este último optado por dedicar-se exclusivamente ao núcleo de direção e dramaturgia, compartilhadas junto aos demais, o que gerou o convite para que Rômulo Braga (Cia. Lúdica) viesse compor o quarteto de atores que se verá em cena.
Esse coletivo partiu de improvisações e imersões na obra de Caio, propôs, sobrepôs e experimentou roteiros e, literalmente “a dez mãos”, assina a criação do espetáculo, que conta de fato com a contribuição do público interessado, presente a cada sessão aberta do Observatório de Criação, cujos feedbacks têm funcionado como autênticos norteadores e ainda se renovarão ao longo da temporada.
Assim como Sílvia Fernandes, Rosyane Trotta também afirma a distinção entre os dois processos de criação compartilhada a partir do estudo que realizou, em sua tese de doutoramento, a cerca das práticas de criação de alguns grupos de teatro, entre eles a Tribo dos Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz. Segundo ela (TROTTA, 2008: 87), embora em ambos os processos o texto não tenha uma existência anterior ao projeto do grupo e sua criação se dê à medida que o espetáculo vai sendo elaborado, na criação coletiva a criação textual – bem como a concepção e produção do espetáculo – fica a cargo dos atores e do diretor, ou seja, na criação coletiva não somente as escolhas relacionadas ao texto cabem a eles, como, por conseqüência, o texto acaba se configurando como uma instância indissociável da cena, uma vez que ele dela emerge. Já no processo colaborativo, os atores participam da construção do espetáculo, mas a criação textual fica a cargo do dramaturgo que, como função específica e especializada, é responsável pelas escolhas relacionadas ao texto. Nesse caso, como afirma Rosyane Trotta, o texto “é construído em diálogo com a cena”, cabendo ao encenador e ao dramaturgo estabelecer o modo como se opera esse diálogo.
Para a pesquisadora, existe ainda uma importante distinção entre os dois processos: enquanto que na criação coletiva, “o ponto de partida para a experimentação cênica é a proposta criada pelo grupo”, no processo colaborativo “o ponto de partida para a experimentação cênica e para a criação do texto é o projeto apresentado pelo encenador”. Isso significa dizer que, enquanto na criação coletiva “o grupo se forma por afinidade entre os participantes e as funções se estabelecem no processo”, no processo de criação colaborativa, segundo ela (TROTTA, 2008: 87), o projeto está centrado na figura do encenador. Ou seja, nesse caso o “grupo se forma por afinidade com o projeto”, sendo cada integrante da equipe de criação “convidado pelo diretor a ocupar determinada função”. Dessa perspectiva, não somente os dois processos se distinguem quanto ao seu modo de criação, como também os campos autorais são diversos. Para Rosyane Trotta, na criação coletiva o campo autoral é coletivo, enquanto que no processo colaborativo, esse campo é plural.
Para o estudo do processo colaborativo, o Teatro da Vertigem e a Escola Livre de Santo André são referências importantes. Antônio Araújo, diretor do Teatro da Vertigem, considera, assim como Sílvia Fernandes, que “o elemento função é o aspecto axial definidor do processo colaborativo”. Para ele, “se a criação coletiva permitia, a cada membro do grupo, a máxima utilização de sua capacidade criadora na associação concomitante de diferentes áreas de criação”, no processo colaborativo, ao contrário, essa capacidade criadora vai ser direcionada para uma determinada função ou atributo, uma vez que a criação colaborativa pressupõe que “todos os integrantes, a partir de suas funções artísticas específicas, têm igual espaço propositivo, sem qualquer espécie de hierarquias, produzindo uma obra cuja autoria é compartilhada por todos”.
Se nas criações coletivas o ator ganha, muitas vezes, o estatuto de centro gerador de onde emerge a criação cênica, é inegável, no entanto, que ele – como veículo e executante das propostas de todos os criadores (inclusive dele mesmo) – tem seu olhar intrínseco à cena. Desse modo, parece ser necessário buscar, no interior mesmo da criação, a construção de um olhar obsceno. Não no sentido que essa palavra, em oposição à noção de “cena” – skené, o “lugar onde ocorre a ação” – vai assumir: de um lugar social que, estabelecido em termos de práticas discursivas, é fora da cena, ou seja, aquele diante do qual se apresenta a obra teatral: o lugar do espectador. Aqui, “obsceno”, embora possa ser uma atitude do espectador, adquire a conotação de uma posição privilegiada que vai, ao mesmo tempo, ser externa à cena e interna à criação e que possibilita o exercício de uma “projeção escaldante de tudo que pode ser extraído [...] de um gesto, uma palavra, um som, uma música e da combinação entre eles. Essa projeção ativa – que só pode ser feita em cena e suas conseqüências encontradas diante da cena e na cena” – parece ser, por excelência, tanto o campo do encenador como o campo do dramaturgo, dentro de um processo colaborativo de criação. Partindo da premissa, levantada por Antônio Araújo, de que a definição de funções é o aspecto axial definidor desse modo de criação (ainda que não seja um elemento, como procurei demonstrar, que vá distingui-lo, rigorosamente, da criação coletiva), gostaria de pensar, agora, a especificidade artística dessas duas funções obscenas, ou seja, perceber quais seriam os limites e matérias próprias da encenação e da dramaturgia no âmbito da criação colaborativa.
Acreditamos num dramaturgo presente no corpo-a-corpo da sala de ensaio, discutindo não apenas o arcabouço estrutural ou a escolha das palavras, mas também a estruturação cênica daquele material. Nesse sentido, pensamos numa dramaturgia como uma escrita da cena e não como escrita literária, aproximando-a da precariedade e efemeridade da linguagem teatral, apesar do suporte do papel no qual ela se inscreve. [...] Ao invés de um escritor de gabinete, exilado da ação e do corpo do ator, queremos um dramaturgo da sala de ensaio, parceiro vivo e presente dos intérpretes e do diretor (SILVA, 2002: 103).
A encenação-em-processo é uma encenação negociada, ou, se quisermos, é uma encenação de alteridades.
E não é somente ela que se encontra em desenvolvimento: o imperativo processual impregna e mobiliza tudo. Temos, portanto, uma dramaturgia em processo, uma interpretação em processo, uma iluminação em processo, e assim por diante. No caso específico do processo colaborativo, num âmbito mais amplo do que aquele delineado por Cohen, não se trata apenas da estruturação de um “roteiro” ou “storyboard”. Há o objetivo de se constituir uma dramaturgia textual. Porém, a sua formulação pode passar longe dos modelos dramáticos convencionais e até mesmo incorporar procedimentos artísticos os mais diferenciados (SILVA, 2008: 191).
A encenação em processo (bem como a dramaturgia) apresentaria, na perspectiva de Antônio Araújo, uma estrutura móvel, instável, sujeita às ondas de turbulência geradas pelo conflito entre as diferentes processualidades. Essas turbulências vão afetar as formalizações cênicas e textuais de modo direto e simultâneo, sem que, em razão disso, elas sejam enfraquecidas. Segundo ele (SILVA, 2008:191), os dois pólos – encenação e dramaturgia – não vão se desestruturar – pois não se submetem um ao outro e, nesse sentido, não se anulam nem se dissolvem – mas, ao contrário, vão se contaminar e se fortalecer, adquirindo “uma estrutura porosa, permeável e flexível”. Em razão disso, a encenação, por já ter inscrito no texto sua “poética espetacular”, não “desconstrói ou relê o texto ao seu bel prazer”. Do mesmo modo, a dramaturgia, “em processo de encenação”, já terá, ela também, “inoculado” sua “textualidade” ou teatralidade no discurso cênico (SILVA, 2008: 191).
Dessa perspectiva, buscar uma demarcação estrita dos territórios de autoria, no interior desses processos, é, de certo modo, uma atitude contraditória: é mais pertinente desfiar, das tramas do tecido dramatúrgico, as possíveis marcas deixadas por um percurso processual e pela proximidade da poética espetacular. Desse ponto de vista, é possível pensar em um conceito de dramaturgia que, decorrente de um processo de criação compartilhado, não somente privilegie a autonomia das diversas vozes criadoras – dos seus gestos de enunciação, das matérias por meio das quais elas operam – mas garanta, também, a marca desse embate na superfície do texto mesmo: uma dramaturgia polifônica.
ROUBINE, Jean-Jacques. A linguagem da encenação teatral. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998, pp. 66-67.
FOUCAULT, Michel. O que é um autor? IN: Ditos e Escritos, III. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006, p. 275.
GUATTARI, Felix. Caosmose: um novo paradigma estético. São Paulo: Editora 34, 1992, p. 137.
DA COSTA FILHO, José. Teatro brasileiro contemporâneo: um estudo da escritura cênico-dramatúrgica atual. Tese (Doutorado em Literatura Comparada) – Instituto de Letras da UERJ, 2003, p. 13.
BAUMGÄRTEL, Stephan A. Em busca de uma teatralidade textual performativa na sombra da globalização: reflexões sobre a situação da dramaturgia brasileira no fim dos anos 80. S/R (artigo inédito).
GARCÍA, Santiago. Teoria e Prática do Teatro. São Paulo: Editora Hucitec, 1988, pp. 27-39.
1. Etapa de livre exploração e investigação: em que as questões centrais do projeto são estudadas, improvisadas e experimentadas, com o objetivo de mapear o campo da pesquisa, levando à identificação de parâmetros e possibilidades. Aqui é onde se deu, fundamentalmente, o levantamento do material cênico;
2. Etapa de estruturação dramatúrgica: em que ocorre a seleção do que foi levantado, visando à criação de partituras de ação, esboços de cena e, em seguida, à roteirização propriamente dita. Essa etapa pressupõe o estabelecimento de, pelo menos, uma primeira versão do texto;
3. Etapa de estruturação do espetáculo e de aprofundamento interpretativo: em que a escrita da cena passa a ocupar o centro das preocupações, tanto no que diz respeito às marcações, espaço cênico, tratamento visual, sonoro, etc., quanto ao aprimoramento do trabalho do ator. O aspecto dramatúrgico continua a ser desenvolvido aqui, enquanto lapidação e acabamento, porém como um foco secundário.
TROTTA, Rosyane. A autoria coletiva no processo de criação teatral. Tese (Doutorado em Teatro) – Centro de Letras e Artes da UNIRIO, 2008.
COHEN, Renato. Work in progress na cena contemporânea: criação, encenação e recepção. São Paulo: Perspectiva, 2004b.