terça-feira, outubro 04, 2011

1.2 Dramaturgia épica, dramaturgia rapsódica

  
Divisor de águas, Brecht é também central no modelo analítico proposto por Sarrazac em O Futuro do Drama. Neste, o autor vai se debruçar sobre a produção dramatúrgica contemporânea (principalmente a francesa, com especial foco na obra de Michel Vinaver) a partir da noção de autor rapsodo. Já nos verbetes de dicionário que compõem a epígrafe de seu livro, Sarrazac nos dá uma pista de sua perspectiva teórica:

Rhapsodage – Action de rhapsoder, de mal raccommoder.
Rhapsode – Terme d´antiquité grecque. Nom donné à ceux qui allaient de ville en ville chanter des poésies et surtout des morceaux détachés de l´Iliade et de l´Odyssée...
Rhapsoder – Terme vieilli. Mal raccommoder, mal arranger.
Rhapsodique – Qui  est formé de lambeaux, de fragments.
                                            Littré
Rhapsodie – 1º. Suite de morceaux épiques recites par les rhapsodes. 2º. Pièce instrumentale de composition très libre...
                                        Petit Robert[1]

A variedade de sentidos presente nos verbetes de dicionário citados por Sarrazac compreende desde acepções artísticas – como aquelas relacionadas ao trabalho dos recitadores da obra homérica, na antiguidade grega, ou a uma composição musical livre – até a noção de remendo ou de “colcha de retalhos”. No entanto, todos eles têm em comum o fato de associarem ao termo rapsodo a idéia de uma composição que é fruto da junção de fragmentos, muitas vezes heterogêneos. Sem dúvida alguma, ao desenvolver o conceito de rapsódia – e todos os seus desdobramentos, uma vez que ele vai se afirmar “como um conceito transversal maior, que se declina em uma série de termos operatórios e culmina na constituição de uma verdadeira constelação rapsódica[2]” – Sarrazac explicita a proximidade da rapsódia com o domínio do épico, território “dos cantos e da narração homéricos e, ao mesmo tempo, dos procedimentos de escritura tais como a montagem, a hibridação, a costura, a coralidade[3]”.
Ainda que o conceito mantenha uma proximidade com esse território, a idéia de constelação rapsódica é mais ampla, pressupondo um “transbordamento rapsódico” que ultrapassa o domínio do épico e coloca a rapsódia sob o signo da polifonia (SARRAZAC, 2005: 185), da qual Bakhtin “mostrou os principais traços: gosto pela miscelânea, pela pluralidade, pela heterogeneidade, pela inversão dos gêneros e das vozes[4]”. Dessa perspectiva, o trabalho que o escritor rapsódico realiza sobre a forma teatral “adquire todo o seu sentido, engendrando, nas escrituras contemporâneas, a estrutura de uma ‘montagem dinâmica’ [da qual] pode surgir a voz rapsódica[5]”. Voz que, segundo Sarrazac, é caracterizada, sobremaneira, pela explosão do diálogo, pela coralidade ou pela multiplicação dos possíveis, sendo “irremediavelmente errante e difratada, votada ao [...] questionamento incessante[6]”.
Ao definir a noção de escrita rapsódica como eixo central da análise que traça da dramaturgia contemporânea, Sarrazac evidencia o interesse em abordá-la a partir de sua estrutura fragmentada, em oposição à estrutura totalizante típica da forma dramática: ele opõe à metáfora corrente do dramaturgo como arquiteto (que opera com grandes unidades estruturais), a metáfora do escritor rapsodo, “que junta o que previamente despedaçou e, no mesmo instante, despedaça o que acabou de unir[7]”. Mas também evidencia o interesse em fortalecer uma visada histórica das categorias estéticas – daí o seu alinhamento com a teoria brechtiana, para a qual, como Sarrazac mesmo lembra, “não basta dizer coisas novas, é preciso, também, dizê-las de outra forma[8]” – porque, para ele (SARRAZAC, 2002: 34), uma escrita contemporânea não se contenta em registrar as transformações ocorridas na sociedade, mas intervém diretamente na “conversão das formas”.
Talvez seja essa, na visão do teórico francês, a maior contribuição de Brecht para o teatro: ao propor um modelo teórico de dramaturgia que questionasse a forma orgânica, preconizada por Aristóteles (a fábula de uma peça de teatro deve corresponder, para o autor da Poética, ao “belo animal”, do qual deve ter não só as proporções, como também a unidade), Brecht abriu caminho para uma “estética do descontínuo[9]”, na qual do dramaturgo já não se exige mais que se restrinja a produzir rígidas imitações da natureza, mas obras contra naturam, híbridas, monstruosas[10]. Segundo Sarrazac, a parábola do drama moderno vem de Kafka que, no conto Cruzamento, descreve uma criatura metade gato, metade cordeiro. Não o fruto de uma miscigenação, como a mula o é do cruzamento que ocorre entre a égua e o jumento, mas uma criatura na qual as partes permanecem discretas, separadas uma da outra (SARRAZAC, 2002: 56). Para ele, nas obras híbridas se revela o gesto que o dramaturgo, na categoria de rapsodo, produz em direção ao futuro do drama, a prática da vivissecção: “cortar e cauterizar, coser e descoser, como se da mesma atitude se tratasse, o corpo do drama[11]”. 
Não pretendo, aqui, desconsiderar a perspectiva apontada por Luiz Fernando Ramos na direção de traçar uma poética do espetáculo que seja autônoma em relação a uma poética do dramático e que se oponha, de certo modo, a uma perspectiva ainda teológica do texto e da dramaturgia[12], seja ela de tradição aristotélica ou marxista. Também não ignoro as importantes contribuições que deram, para uma “estética do descontínuo” – tanto no campo da dramaturgia como no campo da cena – dramaturgos anteriores ou contemporâneos a Brecht, como, por exemplo, Beckett, considerado por Heuvel um precursor da escrita teatral contemporânea. Mas, aqui, o intuito é perceber de que modo Brecht vai influenciar, diretamente, o pensamento da criação coletiva e contribuir para a consolidação do conceito – e sua aplicação nos processos coletivos de criação dramatúrgica – de dramaturgia da cena.
Assim como Ramos, Bernard Dort[13] considera que a história do teatro contemporâneo é melhor descrita pela atividade dos encenadores do que pela obra dos dramaturgos. Remetendo à distinção traçada por Roger Planchon[14] entre a escrita dramatúrgica e a escrita cênica, Dort afirma que, sem dúvida alguma, “é nos textos escritos por nossos encenadores, e não por dramaturgos, que se esboça, de forma mais ampla, a problemática do nosso teatro[15]”. Entretanto, ele salienta não só a necessidade da existência de uma ligação profunda entre essas duas escritas, mas evidencia também o papel que Brecht, como dramaturgo e encenador, exerceu sobre todo o teatro europeu.

O trabalho de Brecht é significativo desta promoção do encenador ao domínio da criação artística: em Brecht, encenação e composição dramática estão ligadas, não podem ser separadas. Para ele, escrever uma peça e encená-la eram dois movimentos de um único e mesmo ato. A extraordinária influência exercida [...] pelo Berliner Ensemble sobre todo o teatro europeu, em grande parte, vem deste fato: em seus espetáculos a realização cênica não resulta somente de um equilíbrio ou de uma unidade do texto à iluminação, passando pela interpretação dos atores – possui coerência e significação próprias. Não se limita a traduzir, explica. Então a representação teatral constitui realmente uma obra autônoma – uma obra cujo autor é o encenador (DORT, 2010: 63).
 
Para Dort, as reflexões de Brecht, expressas sobretudo em seus Estudos sobre teatro[16], vão se referir, mais do que ao texto ou à encenação em si, ao que se poderia chamar de dramaturgia da encenação, isto é, “às relações que unem texto e encenação e o sentido que irá adquirir a obra em contato com o palco, através da intervenção dos atores diante de um público dado, em circunstâncias históricas e sociais determinadas” (DORT, 2010: 64).
Segundo Pavis[17], é justamente a partir de Brecht que o termo dramaturgia passa a abarcar toda a estrutura não só formal, mas também ideológica de uma peça e, em uma acepção “pós-brechtiana”, dramaturgia vai se referir não somente à estrutura textual, mas também aos meios cênicos empregados para levar esse mesmo texto ao espectador, ou seja, para produzir determinado efeito sobre ele (PAVIS, 1999: 113). Assim, para Brecht, a dramaturgia épica designaria uma forma teatral e não somente textual. Como salienta Pavis, “estudar a dramaturgia de um espetáculo é, portanto, descrever sua fábula ‘em relevo’, isto é, na sua representação concreta, especificar o modo teatral de mostrar e narrar um acontecimento[18]” e, nesse sentido, dramaturgia “consiste em instalar os materiais textuais e cênicos, em destacar os significados complexos do texto ao escolher uma interpretação particular, em orientar o espetáculo no sentido escolhido[19]”.
Contudo, é necessário lembrar que essa forma de atividade dramatúrgica, própria do dramaturg, já existia na Alemanha bem antes de Brecht. Segundo Pavis[20] e Carlson[21], a figura do dramaturg existe desde o século XVIII – persistindo até os dias de hoje – e tem origem em Lessing, a partir tanto de sua prática teatral, exercida principalmente no Teatro Nacional de Hamburgo, como da coletânea de reflexões teóricas e críticas que Lessing escreveu – a Dramaturgia de Hamburgo (1769) – e na qual, além de informar o público sobre as peças que eram apresentadas no recém-criado Teatro Nacional de Hamburgo, ele abordava questões de teoria e técnica dramática, fornecendo a base crítica para o estabelecimento do moderno teatro alemão (CARLSON, 1997: 163).
Responsável pela “atividade teórica e prática que precede e determina a encenação de uma obra”, o dramaturg (ou dramaturgista[22]) funciona como uma espécie de conselheiro literário e teatral, trabalhando junto a uma instituição, a um encenador ou a um grupo de teatro (PAVIS, 1999: 117). Segundo Nicolete Abreu[23], o diretor Erwin Piscator salientava não só a presença do profissional em sua equipe, como também a necessidade de seu alinhamento ideológico, a fim de que o dramaturgista pudesse exercer, de fato, uma colaboração artística efetiva com ele ou com o dramaturgo do trabalho. O próprio Brecht, segundo ela, fez parte, no começo de sua atividade teatral, do laboratório dramatúrgico responsável “pelo desenvolvimento ou estudo de textos a serem montados” pela equipe de Piscator e, mais tarde, ao fundar o Berliner Ensemble – juntamente com sua esposa, a atriz Hélène Weigel – ele teria instituído, “de vez, a prática do dramaturgismo” (NICOLETE ABREU, 2005: 16).
Para Bernard Dort[24], é sobretudo ao trabalho realizado no Berliner Ensemble – de grande influência sobre os encenadores franceses – que se deve à instituição bem mais recente do dramaturgismo, na França, como uma atividade distinta daquela realizada pelos encenadores. No entanto, apesar do dramaturgista atualmente se constituir como um setor de atividade específica, ele não é, como salienta Michèle Raoul-Davis[25] – dramaturgista da equipe do encenador Bernard Sobel, no Centre Dramatique National de Gennevilliers – absolutamente visto como um profissional indispensável em um processo de encenação, sendo antes, para o encenador, “um cúmplice remunerado”, cuja presença é justificada somente por seu desejo (ou por sua necessidade) de ter um dramaturgista como interlocutor ou parceiro (RAOUL-DAVIS, 1986: 4).
No estudo que realiza sobre as funções do dramaturgista no âmbito da encenação – tanto no contexto europeu quanto no brasileiro – Magali Helena de Quadros[26] considera, em relação ao vínculo existente entre o encenador e o dramaturgista, que este pode atuar “como um aconselhador, desde a escolha da peça adequada, até os últimos ensaios” e que dentre as inúmeras possibilidades de sua atuação estão a proposição de peças a serem encenadas, a parceria na distribuição dos papéis aos atores e a pesquisa do contexto e dos sentidos complexos do texto teatral, ajudando o encenador a encontrar “os significados pretendidos” (QUADROS, 2007: 43). Ela, no entanto, destaca que a função mais importante do dramaturgista talvez seja “auxiliar na preparação conceitual da encenação[27]”, atividade ressaltada não só por ela, mas também por diversos estudiosos, desde Piscator até Pavis e Dort.
Durante o processo de encenação de uma obra, não raramente o dramaturgista pode ultrapassar uma função meramente conceitual ou teórica e se tornar responsável também pela transcriação[28] do texto dramatúrgico, isto é, por sua adaptação ao contexto de recepção, contemporâneo ao projeto de montagem. Nas palavras de Nicolete Abreu (2005: 17), “além do trabalho sobre um texto já pronto, o dramaturgista pode também se encarregar da escrita, adaptação ou tradução de um texto”, assumindo a responsabilidade de “confeccionar, organizar, estruturar o roteiro ou texto, além de amparar os estudos teóricos necessários à montagem”. Esse fenômeno é perceptível em uma gama de processos de encenação vivenciados por coletivos teatrais brasileiros – pode-se mencionar, por exemplo, o trabalho desenvolvido por Cacá Brandão em diversas montagens do Grupo Galpão, como Romeu e Julieta e Molière Imaginário[29] – nos quais o dramaturgista assume a autoria do texto final da encenação. Para Nicolete Abreu[30], nesse caso – diferentemente da escrita de um texto original, feita por um dramaturgo – como o texto “é fruto de pesquisa, compilação, colagem, adaptação, improvisação e texto mínimo dos atores”, o responsável por esse trabalho dramatúrgico recebe o nome de dramaturgista e, seu ofício, o de dramaturgismo (NICOLETE ABREU, 2002: 58).
Na prática, Brecht conjugava as duas funções. Ou melhor, as três: encenador, dramaturgista e dramaturgo, ele não só escrevia peças originais, como também realizava releituras críticas de clássicos da dramaturgia – são exemplares as releituras cênicas de Antígona, de Sófocles ou de Coriolano, de Shakespeare – e transcriações de argumentos, óperas ou peças teatrais já existentes, como Aquele que diz sim, lehrstücke (peça didática) transcriada a partir da peça Nô Taniko. O processo de criação de Aquele que diz não – “reescrita que não era simplesmente uma inversão da primeira peça, havendo no novo texto aspectos que redimensionam dialeticamente a situação dramática[31]” – é bastante esclarecedor em relação à processualidade dramatúrgica de Brecht. Segundo Bernard Dort (2010: 295), após Brecht escrever a primeira versão da peça, musicada por Kurt Weill, ela foi representada para os alunos da escola Karl Marx e estes foram questionados em relação ao seu conteúdo, no intuito de apurar se davam ou não razão à decisão da criança de sacrificar sua vida para salvar a cidade, em nome do Grande Costume. O ponto de vista dos estudantes em relação a essa decisão levou Brecht a produzir uma segunda versão da obra, na qual a criança diz “não”, abolindo, assim, o Grande Costume e instaurando outro, no qual ninguém mais é sacrificado “pela salvação hipotética de todos em nome de uma natureza qualquer[32]”.
Esse exemplo de intervenção do público no processo criador de Brecht evidencia, para além do aspecto processual das transformações que são operadas em sua escrita e na encenação de suas obras, a importância da mediação do espectador para o desenvolvimento da dramaturgia brechtiana. De fato, como salienta Dort (2010: 295), os principais elementos constitutivos do teatro épico – posso citar, como exemplos, a processualidade, a historicidade, a contradição e o procedimento de montagem (ou série de possibilidades) – vão assumir total eficácia na sua relação com o espectador.
No que tange à importância da experimentação cênica em relação à sua processualidade dramatúrgica, para Brecht, não se trata nem somente de reescrever o texto a partir dos possíveis ganhos impressos à dramaturgia pelo trabalho de encenação, mas de produzir uma dramaturgia a partir das possibilidades apresentadas pelos elementos materiais da cena e pela exploração das potencialidades de cada situação (SARRAZAC, 2002: 64). Trata-se, antes, de criar “um teatro dos possíveis”.
Segundo Sarrazac, a primeira intuição de um teatro dos possíveis – termo que utiliza para designar as estruturas dramatúrgicas propostas por André Benedetto, nas quais a dramaturgia, “impelida pela incessante meditação do autor sobre as personagens e sobre a fábula, (...) progride por hipóteses que se vão substituindo umas às outras[33]” – está justamente em Brecht. Segundo o teórico francês, a técnica de representação que o dramaturgo/encenador propõe aos atores – método que Brecht designa como “determinação do não-antes-pelo-contrário[34]” – vai permitir que, por meio da atuação – “sempre em função do que faz[35]” – o ator possa não só descobrir, mas também sugerir e revelar aquilo que não faz. É especialmente notável que Brecht utilize o verbo descobrir, em primeiro lugar. O ato/gesto de descobrir, desvelar, em perfeita consonância com o conceito de distanciamento, peça-chave da teoria brechtiana[36].

Em tudo o que é evidente, é hábito renunciar-se, muito simplesmente, ao ato de compreender. O que era natural tinha, pois, de adquirir um caráter sensacional. Só assim as leis de causa e de efeito podiam ser postas em relevo. Os homens tinham que agir de determinada forma e poder, simultaneamente, agir de outra (BRECHT, 2005: 66).

O engajamento do ator é, nesse sentido, condição sine qua non para o seu trabalho de atuação, pois, para Brecht (2005: 106), caberá ao ator – e à encenação, como um todo – tornar visível uma alternativa, “de forma que a representação deixe prever outras hipóteses e apenas apresente uma entre as variantes possíveis”. Em outras palavras, diferentemente do dramático, no qual a relação entre o autor e sua composição poética “não é parte essencial do seu caráter de obra” (SZONDI, 2001: 30), no teatro épico as diversas perspectivas sobre a situação apresentada constituem o próprio tecido dramatúrgico. Bernard Dort, ao descrever o trabalho realizado pelo Berliner Ensemble – presenciado por ele na primeira visita do grupo à França, em 1954, e em ocasiões posteriores – salienta a multiplicidade não só dos elementos que constituem a encenação, como também das relações criativas que a produzem e sustentam.

Muito mais do que um estilo de teatro, o que temos diante de nós é aquilo que Roger Planchon chamou [...] de escrita cênica. A obra se realiza plenamente numa linguagem em que todos os elementos (cada acessório, cada gesto e cada movimento dos atores) são significativos [...]. Assim, um espetáculo do Berliner Ensemble se constitui a partir dos mais diversos elementos. Da utilização do cenário em seu conjunto, ao realismo minucioso dos objetos, passando pelo jogo múltiplo, constantemente “quebrado” dos atores, [ele] confronta todos os estilos do teatro contemporâneo. [...] Um trabalho deste tipo evidencia também [...] um caráter coletivo. [...] A encenação não é mais o privilégio de uma só pessoa; o teatro perde seu caráter de competição entre personalidades que só pensam em impor suas singularidades. Neste trabalho coletivo, cada um observa o outro, cada um ajuda e é ajudado pelo outro. Certamente existem [...] rivalidades [...], mas estas tensões [...] não prejudicam o essencial: a multiplicidade de reflexões cuja soma e organização resultam num espetáculo, a riqueza de um trabalho onde experiências diversas são confrontadas, em vez de serem submetidas à vontade onipotente do encenador, tornado rei, e por ele empobrecidas” (DORT, 2010: 300-305).

Em outras palavras, no teatro brechtiano é inaugurado, precisamente, o conceito de dramaturgia coletiva da cena, uma vez que a atividade dramatúrgica já não diz respeito somente à composição do texto escrito. No teatro épico, além da processualidade dramatúrgica estar intrinsecamente relacionada à criação do espetáculo – teatralidade e textualidade como faces da mesma moeda – e de toda a equipe de montagem se tornar responsável pela criação da obra cênica como um todo (NICOLETE ABREU, 2002: 12), é exigido também que o espectador tome parte na criação. Pode-se dizer que, a partir de Brecht, não só “o palco começa a narrar”, como, por conseqüência – uma vez que se conta com o seu despertar crítico – o espectador entra em atividade.


[1] SARRAZAC, Jean-Pierre. Epígrafe IN: O Futuro do Drama. Porto: Campo das Letras, 2002. Como na tradução portuguesa do livro, optei por manter a citação no original. Segue-se minha tradução: “Remendo – ação de remendar, de coser mal. // Rapsodo – termo da antiguidade grega. Nome dado àqueles que iam de cidade em cidade cantar poesias e, sobretudo, recitar trechos da Ilíada e da Odisséia.//Remendar – termo antigo. Coser mal, arranjar mal arranjado.//Rapsódico – que é formado de retalhos, de fragmentos [Dicionário Littré]. Rapsódia – 1º. Seqüência de trechos épicos recitados por rapsodos. 2º. Peça instrumental de composição bastante livre [Dicionário Petit Robert]” 
[2] SARRAZAC, Jean Pierre. Rhapsodie IN: Lexique du drame modern et contemporain. Belval: Les éditions Circé, 2005, p. 184. Tradução minha do original, em francês: “comme um concept transversal majeur, qui se décline en une série de termes opératoires, aboutisssant à la constitution d´une véritable constellation rhapsodique”.
[3] Ibidem. Tradução minha do original, em francês: “des chants et de la narration homériques, en même temps qu´à des procédés d´écriture tels que le montage, l´hybridation, le rapiéçage, la choralité”.
[4] Ibidem: 185. Tradução minha do original, em francês: “en a montré les principaux traits: goût pour le mélange, la pluralité, l´hétérogénéité, le renversement des genres et des voix”.
[5] Ibidem: 186. Tradução minha do original, em francês: “prend tout son sens, engendrant dans les écritures contemporaines la structure d´un ‘montage dynamique’ [dont] peut surgir la voix rhapsodique”.
[6] Ibidem. Tradução minha do original, em francês: “irrémédiablement errante et diffractée, vouée au [...] questionnement incessant”.
[7] SARRAZAC, 2002: 37.
[8] Ibidem: 34.
[9] Ibidem: 56.
[10] Ibidem.
[11] Ibidem: 54.
[12] Ramos aponta a influência da ópera wagneriana e do pensamento cênico de Craig como crucial para as transformações que, de certo modo, vão ser atribuídas por Sarrazac a Brecht.
[13] DORT, Bernard. O teatro e sua realidade. São Paulo: Perspectiva, 2010, pp. 63-64.
[14] Durante uma conferência realizada em Sorbonne em 1960 e intitulada Comment jouer Brecht? (DORT, 2010: 300).
[15] Ibidem: 64.
[16] BRECHT, Bertolt. Estudos sobre teatro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005.
[17] PAVIS, Patrice. Dicionário de Teatro. São Paulo: Perspectiva, 1999. Verbete Dramaturgia, p. 113.
[18] Ibidem.
[19] Ibidem.
[20] PAVIS, op. cit., verbete Dramaturgo, p. 117.
[21] CARLSON, Marvin. Teorias do Teatro: estudo histórico-crítico, dos gregos à atualidade. São Paulo: Editora UNESP, 1997.
[22] Ao contrário da França, em que uma única palavra, dramaturgo (ou dramaturge), designa tanto o autor de peças de teatro como o responsável por sua preparação para a realização cênica, na Alemanha existem dois termos: dramatiker – para o primeiro sentido – e dramaturg, para a segunda acepção (PAVIS, 1999: 117). No Brasil, dramaturg é traduzido, comumente, por dramaturgista, sendo a palavra dramaturgo normalmente empregada para designar aquele que escreve as peças.
[23] NICOLETE ABREU, Adélia Maria. Da Cena ao Texto Teatral: dramaturgia em processo colaborativo. Dissertação (Mestrado em Artes Cênicas) – Escola de Comunicações e Artes da USP, 2005, p. 16.
[24] DORT, Bernard. L´état d´esprit dramaturgique IN: Revista Thêatre/Public: Dramaturgie. Gennevilliers, nº 67, jan-fev 1986, pp. 8-12.
[25] RAOUL-DAVIS, Michèle. Profession Dramaturge IN: Revista Thêatre/Public: Dramaturgie. Gennevilliers, nº 67, jan-fev 1986, pp. 4-6.
[26] QUADROS, Magali Helena de. Buscando compreender a função de dramaturgista. Dissertação (Mestrado em Teatro) – Programa de Pós-Graduação em Teatro da UDESC, 2007.
[27] Ibidem: 43.
[28] O termo transcriação, oriundo da Teoria da Literatura, foi cunhado por Haroldo de Campos para designar a operação de tradução poética, a partir do dogma da “intraduzibilidade” da poesia, afirmado por Jakobson. Segundo este, sendo a poesia intraduzível, só é possível realizar uma operação de “transposição criativa” da obra original para outro contexto (cultural ou linguageiro). É nesse mesmo sentido que o termo vem sendo utilizado, nos estudos teatrais, para designar a operação de adaptação de um texto a outros sistemas semióticos, principalmente no que concerne à passagem da narrativa para o teatro, ou seja, da literatura para o palco. O volume 9 da revista O Percevejo (do Programa de Pós-Graduação em Teatro da UNIRIO) vai tratar, especificamente, das relações entre teatro e narrativa e traz artigos bastante esclarecedores para a questão.
[29] Esse trabalho dramatúrgico é descrito por Cacá Brandão no livro 1 (Romeu e Julieta) e no livro 3 (Um Molière Imaginário) do Diário de Montagem do Grupo Galpão.
BRANDÃO, Carlos A. Leite. Grupo Galpão: Diário de Montagem. Belo Horizonte: UFMG, 2003.
[30] NICOLETE ABREU, Adélia Maria. O Texto Teatral: reflexões sobre alguns processos de criação da dramaturgia contemporânea. Monografia (Especialização em Educação) – Centro Universitário de Santo André, 2002, p. 58.
[31] PINTO, Davi de Oliveira. Nossa Pequena Mahagonny: aspectos processuais de uma dramaturgia colaborativa. IN: Cena Invertida, dramaturgias em processo. Belo Horizonte: Edições CPMT, 2010, p. 29.
[32] DORT, 2010: 295.
[33] SARRAZAC, 2002: 63.
[34] BRECHT, op. cit., p. 106.
[35] Ibidem.
[36] Apesar das oposições entre Brecht e a teoria aristotélica, considero importante lembrar que na tragédia grega, segundo Aristóteles, o processo de conhecimento estava associado à anagnoris, ou seja, ao processo de reconhecimento – de descoberta, de desvelamento – de algo que, embora familiar, era percebido como estranho. Em outras palavras, tornar estranho o familiar era crucial para o processo de reconhecimento que levava ao conhecimento.

quinta-feira, setembro 01, 2011

1. Dramaturgia(s) e o drama


Abordar o conceito de dramaturgia, nos dias hodiernos, é entrar em terreno minado. Com um largo espectro de uso, o termo, antes restrito à poética do texto teatral – ou, mais especificamente, da obra literária dramática – com o avanço dos estudos sobre o espetáculo e das pesquisas sobre processos de criação e produção dos grupos teatrais, tornou-se terreno mais movediço. No que dizem respeito ao teatro contemporâneo, as acepções de dramaturgia se ampliaram e ocupam, atualmente, um vasto campo, concernente tanto às noções de composição poética quanto de produção de sentido, ocorridas nos diversos níveis da cena. Essa ampliação, evidenciada pela utilização, já bastante corrente, do termo dramaturgias, gera categorias diversas, que vão da criação atoral à recepção teatral, e estreita a relação entre textualidade e materialidade cênica, como é perceptível na afirmação de Fernando Mencarelli[1].

A dramaturgia entendida como a arte de compor e tecer a materialidade cênica passa a sugerir novas articulações conceituais. Dramaturgia da luz, propõem os artistas da área. Dramaturgia da imagem, ensaiam os estudiosos de um teatro mais imagético e plástico. A percepção das múltiplas textualidades permite vislumbrar a polifonia constitutiva da cena teatral. Dramaturgia da cena, concluem os criadores debruçados sobre a pluralidade sígnica e polissêmica de gestos, sons, palavras, imagens, luz, espaço.

Muitas das categorias geradas por esse alargamento conceitual têm se firmado como campos específicos de estudo, como, por exemplo, as acepções de dramaturgia do espectador – entendida como a produção de sentido gerada pela atividade do espectador em sua relação com a cena[2] – e de dramaturgia do ator – concernente à composição realizada pelo ator, por meio de sua corporeidade, e que empresta significação ao tecido cênico[3] – só para lembrar dois termos, bastante usuais dentro das investigações teóricas sobre a cena contemporânea, que são tangenciados nesta tese.
Tendo, portanto, ampliado seu alcance, dramaturgia atualmente se refere tanto à obra do dramaturgo – e, assim, refere-se ao texto literário, mas também à operação realizada por seu autor – quanto ao processo de construção do texto de um espetáculo e ao próprio texto resultante desse processo, e, nesse sentido, confunde-se com as noções de escrita cênica, de texto espetacular e de poética da cena. Como meu interesse diz respeito ao trabalho de composição específico do dramaturgo, ainda que no âmbito dos processos colaborativos de criação cênica, buscarei delimitar, pelo menos inicialmente, as questões concernentes à dramaturgia em um campo mais restrito, o da poética do texto.
Na Poética, obra inaugural do estudo da dramaturgia no ocidente, Aristóteles afirma que sendo a poesia dividida, segundo o seu modo, em épica e dramática, é dramática toda imitação de ações em que os personagens agem e obram diretamente. Embora trate especificamente da forma trágica, para Aristóteles o drama – ou composição dramática – pode ser trágico ou cômico, dependendo do objeto que imita[4]. É preciso notar que, na teoria aristotélica, a palavra drama não está relacionada a uma determinada forma histórica de texto teatral – como é o caso do drama burguês, mais comumente associado ao termo – ainda que algumas formas textuais, de desenvolvimento posterior à Poética, possam corresponder a um “padrão” aristotélico de composição dramatúrgica. Para o filósofo, no entanto, drama vai se referir à noção etimológica de ação e, assim, dramaturgia corresponderia, mais explicitamente, ao trabalho de composição das ações humanas. Não sem razão, Aristóteles vai dar uma ênfase especial justamente à poiesis, ao aspecto da composição do texto poético, ou seja, à “sintaxe que organiza os fatos em história e em ficção[5]”. Para ele, a imitação de ações que é obra do dramaturgo pressupõe certos elementos e parâmetros para sua construção, pois, para manifestar seus efeitos, o drama deve ser a mímesis de uma ação una, completa e de certa extensão, dotada de verossimilhança e causalidade interna.
Apesar de não pretender entrar aqui em questões relativas à oposição entre a visão aristotélica e a visão platônica a respeito do conceito de mímesis, uma vez que tal discussão foge ao escopo deste estudo, considero importante salientar que, ao contrário de Platão – que, abordando a arte de uma perspectiva ética, vai condenar a mímesis dramática – Aristóteles trata a arte poética nela mesma, a partir de suas finalidades e modos de funcionamento. Para ele, o conceito de mímesis – de imitação das ações humanas – traz implícito o processo de ficcionalização próprio da criação literária, pois Aristóteles opõe à poesia – seja ela épica ou dramática – o discurso da história, uma vez que, “o papel do poeta é dizer não o que ocorreu realmente[6]” – esse seria o papel do historiador – “mas o que poderia ter ocorrido na ordem do verossímil ou do necessário[7]”. Dessa perspectiva, dramaturgia vai se referir mais do que a uma composição da cena no nível de sua materialidade, ao aspecto literário dessa composição, própria do dramaturgo. Aristóteles, mesmo reconhecendo que o espetáculo cênico é a “parte mais emocionante” da tragédia, considera que ele é, também, a parte “menos artística e menos própria da poesia. Na verdade, mesmo sem representação e sem atores, pode a tragédia manifestar seus efeitos[8]”, afirma ele.
A partir de Aristóteles, a teoria vai se debruçar sobre o estudo da dramaturgia como obra literária. Aqui, mais duas considerações: (1). Como salienta Bernard Dort[9], a teoria, em contraposição à crítica jornalística (que centralizou sua análise no campo efêmero do espetáculo), estudou, durante séculos, o fenômeno do teatro no que ele tinha de mais durável, sólido e eterno: o texto. Por conseqüência, pode-se dizer que a mise-en-scène[10] não foi vista, durante muito tempo, como obra, mas como plasmação da peça de teatro, esta sim obra do dramaturgo. Nesse sentido, uma abordagem teórica que fosse problematizada pela tensão existente entre as noções de escrita teatral e dramaturgia da cena, nem seria vista como questão. (2) Aliada a esse pensamento, a divisão rigorosa dos gêneros literários pressupunha um funcionamento distinto para a narrativa épica e a poesia dramática, a fim de garantir que, nesta, o mundo narrado fosse posto em movimento por um mecanismo automovente – sustentado pelas ações do protagonista e por seu encadeamento causal – o mecanismo dramático. Nessa concepção, a autonomia do mundo narrado só é possível com a absoluta separação entre o mundo e o sujeito que o narra, ou seja, no drama, a voz do autor está ausente do mundo plasmado pela construção poética, revelando-se apenas no projeto que o dramaturgo executa, a partir de suas escolhas e decisões estéticas.
Tal visão ganhará força a partir da retomada do ideal clássico pelo Renascimento e, em conseqüência, da retomada dos conceitos aristotélicos (mímesis, causalidade, verossimilhança, unidades de ação, tempo e espaço) que, a partir dos comentadores do filósofo, se elevarão à categoria de paradigmas universais da criação dramatúrgica, independentes de sua condição histórica. A análise aristotélica passa a ser considerada prescrição normativa, ganhando força de lei. E é justamente a partir do Renascimento que a forma histórica que será denominada por drama vai surgir.
Tendo o ser humano como centro, o drama dará vazão a inquietações e conflitos próprios das relações mais horizontais que começam a se estabelecer entre os homens, a partir das transformações históricas ocorridas no período[11]. O conflito já não é da ordem da pólis (ou do transcendente), como na tragédia, nem governado por uma verticalidade própria do divino, como no período imediatamente precedente ao Renascimento, o medieval, mas da ordem do humano. Centrado na relação intersubjetiva, o drama, segundo Szondi[12], como forma é absoluto e nele quaisquer elementos que escapem à relação entre indivíduos, ou seja, quaisquer aspectos concernentes à interioridade das personagens – líricos – ou às questões de ordem social – épicos – deverão estar ausentes. Caberá, então, às personagens, por meio das relações intersubjetivas – e de sua expressão lingüística, o diálogo – conduzirem a ação dramática. Ainda de acordo com o teórico, a ação deverá ocorrer, necessariamente, no presente: cada ação engendra a próxima (causalidade), pois qualquer descontinuidade temporal ou espacial denunciaria a presença do autor, responsável pela montagem.
Como uma “dialética fechada em si mesma[13]”, o drama desconhece tudo o que não se refira a ele próprio – por seu caráter absoluto, o drama é primário, só representando a si mesmo – e, em função disso, nem a presença do autor nem a do espectador devem ser percebidas.

O dramaturgo está ausente no drama. [...] As palavras pronunciadas no drama são todas elas de-cisões [Ent-schlüsse]; são pronunciadas a partir da situação e persistem nela; de modo algum devem ser concebidas como provenientes do autor. O drama pertence ao autor só como um todo, e essa relação não é parte essencial do seu caráter de obra. O mesmo caráter absoluto demonstra o drama em relação ao espectador. Assim como a fala não é expressão do autor, tampouco é uma alocução dirigida ao público. [...] A relação espectador-drama conhece somente a separação e a identidade perfeitas, mas não a invasão do drama pelo espectador ou a interpelação do espectador pelo drama (SZONDI, 2001: 30).

Ou seja, subjacente à noção de drama absoluto está a idéia de que o teatro é, antes de tudo, teatro dramático e, nesse sentido, ele é, em primeira instância, um teatro do texto. Como afirma Sílvia Fernandes, no teatro dramático, a “representação de um cosmos fictício” ocorre em uma caixa preta, “em um palco fechado, ou teológico, como queria Jacques Derrida, e é instaurado por personagens que imitam ações humanas com a intenção de criar uma ilusão de realidade[14]”. Segundo Szondi, esse modelo poético do drama vai persistir até o final do século XIX, quando, diante de temáticas novas, próprias do momento histórico em que viviam os dramaturgos, a forma dramática entrará em crise.
Na análise empreendida por ele de cinco dramaturgos – Ibsen, Tchékhov, Strindberg, Maeterlinck e Hauptmann – é perceptível a invasão da forma dramática por elementos épicos e líricos. Aspectos considerados como essenciais ao drama como o diálogo, o conflito e a personagem começam a encontrar aí sua dissolução, sendo os componentes da tríade conceitual que o sustenta – ação presente e intersubjetiva – substituídos por “conceitos antitéticos correspondentes[15]”: o presente é substituído pelo passado (Ibsen) ou pela utopia (Tchékhov); a ação pelo estado condicionado (Hauptmann) ou por estados do eu (Strindberg); as relações intersubjetivas são substituídas pela morte (Maeterlinck) ou pelas condições políticas e econômicas (Hauptmann).
Na continuação de sua análise, Szondi afirma que o drama, ainda que passe por tentativas de salvamento, terá, a partir do século XX, sua forma explodida e a precipitação dos novos conteúdos encontrará, a partir de experimentos formais, a consolidação de mudanças estilísticas. Como salienta Sílvia Fernandes, a análise do teórico discorda de uma visão normativa do texto, a qual “leva à suposição de que uma mesma forma dramática pode ser usada em qualquer época, para a construção poética de qualquer assunto[16]”. Para ela, Szondi vai, a partir de uma visão dialética, propor “uma equivalência entre forma e conteúdo, com a forma concebida como uma precipitação do conteúdo (como quer Adorno), onde a temática nova funciona como um problema para a antiga moldura formal[17]”. 
Já para Luiz Fernando Ramos[18], Szondi vai ignorar, em sua análise da crise que origina o drama moderno, a tensão (e mútua influência) existente entre as formas cênicas – ou “poética do espetáculo[19]” – e as formas textuais – ou “poética do dramático[20]” – uma vez que o teórico vai atribuir as transformações operadas na forma dramática somente às relações existentes entre essa mesma forma e os conteúdos que encerra. Para Ramos (2010: 60), ao contrário, essas alterações poderiam ser igualmente atribuídas “à transformação ocorrida no fim do século XIX, a partir da ópera wagneriana, quando o paradigma de uma poética do drama, ou da trama, como tinha sido traçada por Aristóteles, começa a ser substituído pelo de uma poética da cena”. Segundo ele, o paradigma que vai acabar se impondo, ao longo do século XX, é, sobretudo, o da poética do espetáculo, sendo possível pensar toda a tradição moderna – tanto no âmbito da cena como no âmbito do texto – como expressão da “tensão crescente entre uma poética do espetáculo e uma poética do dramático”.  
Perspectiva semelhante é defendida por Heuvel[21], para quem o teatro moderno – bem como o contemporâneo – é marcado por uma reação às convenções literárias do drama, orientada por renovações oriundas da performance. Para Heuvel, o sentido de performance é amplo e abarca desde a noção de encenação de um texto teatral até a visão dela como “uma forma de arte autônoma, como uma alternativa ao drama ‘literário’ e, finalmente, como um privilegiado mecanismo de desconstrução do palco teológico e da semiose convencional do drama[22]”. Segundo ele, é justamente a desconstrução das convenções literárias de sentido, estrutura, enredo, espaço e caracteres, possibilitadas pela performance, que vai alterar substancialmente não só as formas teatrais, como também as próprias formas textuais, que passam a explorar, em sua construção, elementos propriamente performativos.

Esses desenvolvimentos e as mudanças estilísticas e conceituais que eles moldaram, na criação de novos tipos de linguagem dramatúrgica – o uso de estruturas narrativas não lineares, o desenvolvimento de modos de representação mais físicos e os experimentos inovadores do tempo, espaço e encenação teatrais – expandiram a capacidade de expressão do teatro [23]

No que concerne às relações entre a poética do espetáculo e a poética do drama – definido por ele (HEUVEL, 1991: 4) como o campo das convenções lógico-discursivas do texto literário – é especialmente iluminador o capítulo que Heuvel dedica à análise da obra de Beckett, cujas inovações performativas – ocorridas no nível do texto – a aproximam, segundo ele, dos experimentos teatrais da década de 80, como os de Richard Foreman e de Robert Wilson, e ainda a localizam como um projeto estético à frente do modernismo e precursor do teatro e da dramaturgia contemporâneos.

As peças de Beckett e suas narrativas incisivas revelam as mal definidas perturbações que iniciam o movimento de afastamento da órbita cultural modernista, em direção ao pós-moderno. Além disso, seus últimos trabalhos indicam novas alternativas [...] e mapeiam o que provavelmente vai substituir o que já havia se tornado insípido e chique no pós-modernismo. Ou seja, Beckett é uma figura de transição, cujo projeto estético contraditório atravessa o moderno e o que se segue a ele, ocupando uma posição relativa, tanto atrás dos artistas do teatro contemporâneo (como uma fértil influência modernista sobre eles) como também, de certo modo, antes deles (como um desbravador daquilo que eles estão agora descobrindo). [...] Beckett tanto reflete como gera mudanças significativas na cultura e na consciência contemporâneas[24]

Ao considerar, em contraposição às observações levantadas por Heuvel, o modelo teórico proposto por Szondi – o qual “pressupõe uma forma dramática pura, fechada em si mesma [...], até porque [esta] expressaria as grandes transformações históricas, que inseriram os homens numa relação mais horizontal de troca[25]” – é quase impossível não perceber a pertinência da colocação feita por Luiz Fernando Ramos, ao salientar o estranho silêncio de Szondi no que tange, justamente, às características históricas não só das transformações operadas na cena – naquele que se convencionou chamar de “século da encenação” – mas também as evidentes conseqüências que tais transformações teriam tido, como ressaltado por ele, sobre a escrita teatral do século XX (RAMOS, 2010: 61). Contudo, a visada teórica de Szondi é justificada pelo fato de que sua perspectiva analítica, embora de natureza histórica e não normativa, é pautada na dialética marxista, fundamental para a gênese da categoria de drama moderno que é eixo central do seu trabalho, o drama épico.
Do ponto de vista dialético, torna-se evidente a opção do teórico em discutir essa gênese dentro de uma linha evolutiva de desenvolvimento histórico do paradigma dramático, a partir da tensão entre a forma e o conteúdo textual. A partir dessa perspectiva, é possível considerar que Szondi vai reconhecer, inclusive, o processo de transformação ocorrido nas formas artísticas como um todo (Stendhal e, para não se restringir ao campo literário, Cézanne e Wagner), durante o que ele denomina “período de transição”, ou seja, a passagem do século XIX para o século XX. Mesmo que, no campo da encenação, ele acabe por abordar, somente, aquele diretor de teatro que, de alguma forma, “pavimenta” o caminho até Brecht: Erwin Piscator. Como salientado por Szondi, essa “única inserção de acontecimentos da história do teatro[26]” se justifica pela influência que o encenador vai exercer sobre os dramaturgos das décadas seguintes.

Pois a sentença da temática social contra a forma dramática, contida já em Os tecelões, é executada nos anos 20 não primeiramente no domínio da criação dramática, mas no âmbito efêmero da encenação. É o que acontece na obra de Erwin Piscator, cujo livro O teatro político (1929), muito informativo tanto do ponto de vista documental como do programático, apresenta alguns dados que entram no contexto de nosso estudo (SZONDI, 2001: 127).

Para Szondi (2001: 130), a formulação mínima que Piscator utilizava em suas tentativas de encenação – “a elevação do elemento cênico ao histórico, ou, em sua acepção formal, a relativização da cena atual em função do elemento não-atualizado da objetividade” – vai permitir o desenvolvimento, a partir da destruição da “natureza absoluta da forma dramática”, do teatro épico.


[1] MENCARELLI, Fernando Antônio. Dramaturgias em processo: a cena pelo avesso IN: GRUPO TEATRO INVERTIDO. Cena Invertida: Dramaturgias em Processo. Belo Horizonte: Edições CPMT, 2010, pp. 12-25.
[2] Essa atividade do espectador não se dá diante de toda forma de expressão teatral. Segundo Desgranges (2003, 2006, 2008), é precisamente a cena contemporânea (entendida como conectada ao nosso tempo), na qual a dimensão de experiência está presente, que convoca o espectador a produzir significâncias independentes – ou justapostas – daquelas propostas pelo conjunto da encenação.
[3] “A emergência dos teatros laboratórios na segunda metade do século 20, associada aos princípios artaudianos que ganharam corpo com as vanguardas teatrais, [...] foi aos poucos afirmando a tessitura das pluralidades constitutivas dos coletivos como uma das principais tarefas criativas. Uma percepção mais clara das múltiplas dimensões da construção do sentido na cena, do gesto à palavra, levava à proposição de uma construção dramatúrgica pensada em diferentes planos [...]. Com os teatros laboratórios afirmava-se a proposição de uma dramaturgia do ator, uma vez que este era convocado a ser elemento propositivo fundante nos trabalhos de criação” (MENCARELLI, 2010: 16-17. Grifos meus).
[4] “É também essa diferença o que distingue a tragédia da comédia: esta pinta os homens piores do que são, aquela os torna melhores do que se apresentam na realidade” (ARISTÓTELES, 1992: 1448a).
[5] COMPAGNON, Antoine. O demônio da teoria. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2001, p. 104.
[6] ARISTÓTELES, 1992: 1451b.
[7] Ibidem.
[8] Ibidem: 1450b (grifos meus).
[9] DORT, Bernard. Prefácio IN: SARRAZAC, Jean-Pierre. O Futuro do Drama. Porto: Campo das Letras, 2002.
[10] A opção de manter o termo em francês se deve à necessidade de se evidenciar, na palavra encenação, o seu sentido de “colocação em cena”, mais amplo do que a noção de escritura cênica, denotada atualmente pelo uso do termo encenação. Nesse sentido, mise-en-scène também pode significar representação.
[11] RAMOS, Luiz Fernando. Pós-dramático ou poética da cena? IN: GUINSBURG, J. & FERNANDES, S. O Pós-Dramático: um conceito operativo? São Paulo: Perspectiva, 2010, p. 60.
[12] SZONDI, Peter. Teoria do Drama Moderno. São Paulo: Cosac & Naify, 2001.
[13] Ibidem: 30.
[14] FERNANDES, Sílvia. Teatros pós-dramáticos IN: GUINSBURG, J. & FERNANDES, S. O Pós-Dramático: um conceito operativo? São Paulo: Perspectiva, 2010, p. 13.
[15] SZONDI, op. cit., p. 91.
[16] FERNANDES, Sílvia. Notas sobre Dramaturgia Contemporânea IN: Teatralidades Contemporâneas. São Paulo: Perspectiva, 2010, p. 154.
[17] Ibidem.
[18] Ele discute (RAMOS, op. cit., pp. 59-70. Ver nota 10) a validade da noção de pós-dramático – proposta pelo teórico alemão Hans-Thies Lehmann – como conceito operativo para a cena contemporânea. Na esteira, Ramos faz a crítica da abordagem feita pela teoria teatral de tradição marxista, no qual se alinham Szondi e, como seu discípulo direto, Lehmann.
[19] RAMOS, 2010: 60.
[20] Ibidem.
[21] HEUVEL, Michael Vanden. Performing Drama/Dramatizing Performance: alternative theater and the dramatic text. Michigan: University of Michigan Press, 1991.
[22] “[…] as an autonomous art form, as an alternative to ‘literary’ drama, and, finally, as the privileged mechanism for deconstructing the theological stage and conventional dramatic semiosis” (HEUVEL, 1991: 5-6. Tradução minha).
[23] “These developments and the stylistic and conceptual changes they have wrought – in the creation of new types of dramatic language, the use of nonlinear narrative structures, the development toward more physical acting styles, and innovative experiments in the use of theatrical time, space, and the mise-en-scène – have expanded theater’s capacities for expression” (HEUVEL, 1991: 8. Tradução minha).
[24] “Beckett's plays and narratives acutely disclose the ill-defined perturbations that initiate the movement away from the modernist cultural orbit toward the postmodern. Beyond that, his last works indicate new alternatives […] and map out what likely will displace that which had already become insipid and chic in postmodernism. That is to say, Beckett is a transitional figure whose contradictory agenda straddles the modern and what follows upon it, occupying a relative position both behind contemporary theater artists (as a brooding modernist influence upon them) and somehow before (as an explorer of what they are currently discovering). [...] Beckett both reflects and engenders significant shifts in contemporary culture and consciousness” (HEUVEL, 1991: 68-69. Tradução e grifos meus).
[25] RAMOS, op. cit., p. 60.
[26] SZONDI, op. cit., p. 127.